Os afetos que habitam uma casa

Conceito de Documentário Imaginário

O conceito de documentário imaginário é um enfoque que se desvia do tradicional relato factual, buscando ir além da simples documentação ao representar as vivências e os sentimentos de indivíduos com um olhar poético. Essa abordagem, desenvolvida pela pesquisadora Kátia H. Lombardi, propõe que as imagens não são meros testemunhos da realidade, mas sim interpretações que incitam a imaginação e provocam um diálogo mais profundo entre o espectador e a obra.

O documentário imaginário convida os fotógrafos a explorar suas referências culturais e estéticas com liberdade, permitindo que suas particularidades e subjetividades moldem a narrativa visual. Assim, as obras se tornam um espaço de reflexão sobre a condição humana, revelando camadas de significado que transcendem o ordinário e capturam o efêmero da vida cotidiana.

A Exposição Casa Habitada

A exposição Casa Habitada é uma jornada íntima explorada pelos fotógrafos Ulisses Moura, Dhyego Lima e Nivaldo Carvalho. Com curadoria de Milena Travassos, a mostra foi idealizada para abrir um espaço de reflexão sobre os laços afetivos que permeiam o ambiente caseiro. Iniciada no Recife, a exposição chega agora a Garanhuns, trazendo 58 obras que combinam fotografias de diversos tamanhos e uma obra de videoarte.

A mostra foi concebida durante um período de grande isolamento, resultado da pandemia de Covid-19, refletindo sobre a vida familiar e a essência do que significa uma casa habitada, onde cada objeto, cada canto, carrega uma carga simbólica e emocional. A exposição propõe um mergulho nos lares dos fotógrafos, revelando sua relação pessoal com os espaços que habitam e as histórias que eles guardam.

Impacto da Curadoria na Narrativa

A curadoria, liderada por Milena Travassos, exerce um papel crucial na formação da narrativa da exposição. Ao estruturar o percurso expositivo em três temas centrais — Solidez, Limite e Fluxo — a curadora proporciona um fio condutor que orienta a percepção do espectador em relação às obras apresentadas. Estes eixos são baseados nas experiências e na sensibilidade de cada fotógrafo, gerando um espaço para que os visitantes se conectem com suas histórias.

O conceito de “documentário imaginário” se torna especialmente relevante neste contexto, pois as imagens, embora ancoradas na realidade, buscam comunicar emoções profundas e nuances presentes no cotidiano. Esse enfoque torna a exposição visceral e íntima, ao mesmo tempo que amplia a reflexão sobre as dimensões da vida dentro de casa.

Solidez: Retratos que Contam Histórias

No eixo temático Solidez, Ulisses Moura apresenta um ensaio visual profundamente íntimo e emocional. Ele retrata sua avó, Dona Hozana, através de imagens que evocam conforto e vulnerabilidade. As fotografias, capturadas em tons de sépia e preto e branco, documentam momentos da rotina da matriarca, incluindo seus desafios de saúde, como a rotina de hemodiálise, que é simbolicamente retratada pelo curativo visível em sua perna.

Através de uma perspectiva afetiva e respeitosa, Ulisses consegue transmiter a dualidade da fortaleza e fragilidade de sua avó. As imagens são congeladas em momentos de simples observação, como uma cena da avó sentada em sua porta, contemplando a vida externa. “Suas fotos refletem não apenas a presença de Dona Hozana, mas a reverberação de seu papel como pilar familiar, uma memória que sustenta a narrativa doméstica”, comenta a curadora, destacando o caráter une da exposição.

Além da exibição das imagens, a ambientação planejada para esse núcleo temático — com uma cadeira de balanço e paredes em vermelho vivo — aumenta a sensação de conexão e proximidade com as histórias contadas.

Limite: Janelas e o Mundo Exterior

No eixo Limite, Dhyego Lima explora a simbiose entre o interior e o exterior através de dípticos fotográficos centrados em janelas. Essas estruturas não são apenas elementos arquitetônicos, mas também metáforas visuais que refletem a intersecção entre os domínios íntimos e públicos. Capturando a vida cotidiana de seus amigos, as janelas se tornam molduras ideais para fixar a essência de momentos compartilhados.

As imagens são apresentadas em duas perspectivas: primeiramente vazias, depois ocupadas por seus moradores, desafiando o espectador a refletir sobre como as janelas influenciam a percepção do nosso espaço pessoal. As janelas simbolizam os limites que demarcam o que é conhecido do que permanece fora de alcance, oferecendo uma meditação sobre a segurança e a vulnerabilidade que a vida dentro de casa pode trazer. “Dhyego captura essas molduras que delimitam territórios, que criam diálogos entre o íntimo e o público”, afirma a curadora, sublinhando a relevância das janelas durante o isolamento imposto pela pandemia.



A cenografia deste espaço expositivo é cuidadosamente planejada, com paredes escuras e iluminação focada, criando uma atmosfera que imita o simbolismo dessas janelas.

Fluxo: O Movimento da Vida Diária

O eixo Fluxo traz a significativa exploração de Nivaldo Carvalho, que documenta o processo de mudança de sua casa através de imagens em preto e branco. A transição de sua moradia é capturada em uma série de fotos que mostram estantes vazias, pilhas de livros e objetos pessoais em meio ao caos do desmonte. Nesse registro, a presença de seu filho recém-nascido também aparece como um elemento que simboliza a passagem do tempo e a continuidade da vida.

As imagens não se limitam a documentar a mudança física, mas também evocam um deslocamento existencial que acontece durante esse processo. A luz utilizada nas fotos destaca a transformação e transição de um espaço que se modifica constantemente. A série é ainda acompanhada de uma videoarte que também aborda a experiência da mudança. “Durante a transição, Nivaldo encontrou poesia no transitório, capturando momentos que falam sobre o movimento constante da vida doméstica”, observa a curadora, enfatizando que o fluxo é tanto físico quanto emocional.

Para garantir uma imersão completa, o espaço expositivo nessa parte da mostra conta com caixas e objetos pessoais dispostos pelo chão, permitindo que o público interaja e sinta a intimidade desses momentos de reorganização.

Processo Criativo dos Fotógrafos

O processo criativo de Ulisses Moura, Dhyego Lima e Nivaldo Carvalho está intrinsecamente ligado às suas vivências e experiências pessoais, evidenciando como a fotografia serve como um veículo de expressão e reflexão. Cada um dos fotógrafos não apenas documenta a realidade ao seu redor, mas também transforma essa realidade em narrativas visuais que convidam à contemplação e interpretação.

As abordagens distintas de cada fotógrafo proporcionam uma diversidade de perspectivas sobre a mesma temática — o lar e a intimidade. Ulisses foca na conexão emocional com sua avó e as tradições familiares, Dhyego questiona as fronteiras entre o público e o privado através das janelas, enquanto Nivaldo reflete sobre a transição e a efemeridade da vida cotidiana.

A Importância da Memória Doméstica

A memória doméstica é um dos pilares centrais da exposição, refletindo sobre como as casas e os objetos que nelas residem carregam histórias e experiências que definem quem somos. A exposição Casa Habitada não apenas celebra os lares, mas também provoca uma reflexão sobre o que esses espaços significam para cada indivíduo e coletividade.

As fotografias, ao capturarem momentos íntimos e pessoais, propõem uma ressignificação do que é considerado espaço privado e como esses espaços muitas vezes contêm as narrativas de uma vida. Ao relembrar estas memórias, os visitantes são convidados a explorar suas próprias histórias e a refletir sobre o impacto que seus lares têm em suas vivências.

Interatividade e Acessibilidade Cultural

A exposição Casa Habitada também se destaca por suas ações educativas e seu compromisso com a acessibilidade cultural. Com medidas voltadas para incluir Pessoas com Deficiência (PCD), a programação da exposição inclui bate-papos online com os fotógrafos e a curadora, abrangendo uma diversidade de vozes e experiências.

Essas encontros, que ocorrerão ao longo da exposição, são uma oportunidade valiosa para criar um diálogo mais profundo entre o público e os artistas. Todos os bate-papos serão acessíveis, contando com gravações e interpretação em Libras, garantindo que um número maior de pessoas possa participar e enriquecer a experiência.

Programação da Exposição

A programação da exposição inclui diversas atividades que propõem uma imersão ainda maior no universo das obras apresentadas. No dia 5 de setembro de 2026, às 18h, ocorre a abertura com um bate-papo entre a curadora Milena Travassos e os fotógrafos Dhyego Lima, Nivaldo Carvalho e Ulisses Moura.

Além disso, foram agendadas uma série de conversas online que contarão com a presença dos artistas e são abertas ao público, permitindo que todos tenham a chance de interagir e aprofundar suas compreensões sobre a exposição e as obras. A programação continua até 5 de março de 2027, culminando com o lançamento do catálogo da exposição, durante o encerramento que promete ser um evento memorável.

Com esse conjunto de ações e a força das imagens, a exposição Casa Habitada busca não apenas apresentar a arte da fotografia, mas também estabelecer um diálogo contínuo sobre as relações humanas e a importância dos afetos que habitam nossos lares.



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